O ano das vacas magras
No início de 1954, eu havia escrito no “Jornal do Comércio” do Recife um artigo dizendo que pretendia vir morar no Rio de Janeiro. Se não me casasse dentro de dois anos, após ter chegado ao Rio, iria para São Paulo. Se não me casasse dentro de mais dois anos, iria para Nova York e se não me casasse dentro de mais dois anos, iria para Tóquio. A sorte estava lançada e me preparei para o futuro...
No dia 02/09/1954, tomei um avião no Recife, com 8 mil cruzeiros na bolsa (equivalente a um mês de salário), e vim me encontrar com Solly, uma ex-colega de trabalho na SINGER, que viera morar no Rio e vivia num pensionato na Glória. Passamos alguns meses tentando conseguir um bom emprego. Eu era esteno-datilógrafa bilíngüe, diziam que era bonita e tinha muita fé em Deus.
Meu primeiro emprego foi numa companhia de engenharia. Não gravei o nome da firma, porém uma coisa guardei na memória. Naquele tempo não havia self-service, a comida no pensionato era péssima e eu tinha saudade de uma boa refeição. Na tal firma o almoço era fraqueado aos empregados. No primeiro dia o cardápio servido foi arroz, feijão manteiga, carne assada e salada de alface e tomate. Que delícia, meu Deus! Eu queria ficar naquele emprego só para saborear aquele tipo de refeição.
Infelizmente, porém, a moça que eu iria substituir era feia, gorda e chata, e fez questão de me ensinar tudo errado, pois, segundo ela mesma declarou, “não gostou da minha cara”, talvez me achando bonita e confiante demais. Fui desclassificada.
O segundo emprego foi na filial recém instalada do Bank of América (da Ordem Jesuíta), onde me tornei secretária interina, até que chegasse a americana que estava terminando o curso de Português nos EUA. O gerente foi muito bom comigo, pois me deu um mês de salário de indenização, mesmo tendo eu trabalhado apenas dois meses no tal banco.
O terceiro emprego foi na firma de um judeu alemão (Marobras) e poderia ter ficado ali, pois corrigia as cartas que ele redigia em Inglês e o velhote me achou tão competente que foi logo me pedindo a carteira para assinar, antes de decorrido o prazo de 30 dias, como fora combinado. Saí porque o escritório era velho e sujo e eu sempre tive mania de limpeza. Além disso, eu havia colocado um anúncio num jornal bilíngue e fora chamada para trabalhar na firma inglesa Mappin & Webb como secretária do Diretor, onde fiquei até me casar, o que aconteceu exatamente na véspera de completar dois anos de chegada ao RJ. Foi assim que São Paulo, Nova Iorque e Tóquio deixaram de me conhecer... Ou seja, perderam uma excelente oportunidade!!!
Naquele primeiro ano no RJ, Solly e eu sofremos bastante. Mudamos de residência pelo menos 4 vezes, pois se o pensionato era ruim, as três casas para onde mudamos em seguida eram bem piores. As camas eram cheias de pulgas, o jantar era péssimo e o almoço era na cidade, em algum refeitório para nordestinos pobres, que não podiam pagar muito.
Finalmente Deus se compadeceu de nós e conseguimos um bom lugar para morar, em casa de uma senhora distinta com dois filhos adolescentes, gente muito simpática e educada.
Depois de bem instaladas num confortável quarto de 16 metros quadrados, com um excelente armário embutido e uma boa sopa no jantar (acompanhada de um pãozinho com manteiga), preparamo-nos para conquistar a Cidade Maravilhosa. Passamos a almoçar no restaurante da “Cultura Inglesa”, onde a comida era apenas sofrível. Nesse tempo, atendendo a um pedido de apreciação sobre a comida, fiz umas trovas e coloquei na caixa coletora de opiniões.
A refeição da Cultura,
parece bem preparada
mas é carente em fartura,
pois sempre vem “controlada”.
A limonada só tem
o gosto de limonada,
porque nunca sabe bem
pouco açúcar e muito aguada.
Dirigentes da Cultura,
tende piedade da gente,
dando mais carne e verdura,
senão, não há quem agüente!
Antes de conseguir emprego, Solly e eu vivíamos olhando os "Classificados" do "Jornal do Brasil". Depois de empregadas, certa manhã, quando íamos para a praia de Copacabana, olhei o jornal e fiz uma trova: "É uma felicidade, / debaixo de um céu de anil,/ não termos necessidade/ de ler Jornal do Brasil.”
Solly havia feito um concurso para o INCRA, passou e foi logo chamada. Eu fui tão burra que não quis ser funcionária pública e preferi trabalhar em firmas particulares. Trabalhava mais e ganhava menos do que ela... Tanto que me aposentei ganhando menos do que ela, mesmo tendo sido micro-empresária por 36 anos.
Em setembro de 1956, casei com um alemão de Berlim, Solly casou com um americano radicado no Brasil e nossas filhas (Margarete e Belva) nasceram quase na mesma época.
Desde 1995, moro em Teresópolis, RJ. Solly comprou um pequeno apê próximo ao meu e costuma vir passar fins de semana, por isso estamos sempre juntas, relembrando os tempos da mocidade. Temos boa saúde, não engordamos e gostamos dos mesmos pratos. Nossas filhas, já estão quase chegando aos 50 anos, ambas casadas e com filhos na universidade. Brevemente, seremos bisavós e continuaremos a relembrar o ano das vacas magras, quando éramos jovens, preocupadas com o futuro e sempre honestas no procedimento. Solly é espírita kardecista, eu sou batista bíblica. Se Deus quiser, um dia ela vai se converter ao Senhor Jesus Cristo e então deixaremos de brigar tanto por causa de doutrina. A gente briga, briga e logo faz as pazes, pois aquele ano das vacas magras nos uniu para sempre!!!
Mary Schultze dezembro 2006