Não gosto de festas e quando se trata de comemorar meu aniversário, então eu simplesmente as abomino. Em geral minhas comemorações de aniversário sempre acabam em tragédia e eu só espero que este ano Deus tenha piedade de mim e não me faça passar vergonha. Vou citar algumas festas que me deixaram traumatizada.
1. - Quando completei 14 anos de idade, meus pais fizeram uma linda festa, pois nesse dia minhas duas irmãs prediletas, Rosa e Dária, estariam recebendo a “primeira comunhão”. Na hora do lanche matinal, após a missa solene, nossa cozinheira deixou queimar uma panela de mingau de aveia e quando provei o dito, numa mesa com 30 convidados, o mingau estava amargando e fiquei morrendo de vergonha.
Como se não bastasse, à tardinha, saí com as duas irmãs para um passeio na praça principal da cidade, exibindo meu vestido novo de seda azul celeste. Lá pelas tantas, meu nariz começou a sangrar e, quando cheguei em casa, estava completamente lavada de sangue.
2. - Na véspera de completar 33 anos, voltando do Rio, parei com meu marido, Solly e sua filha Belva, de 5 anos, para apanhar uma torta de nozes na “Casa do Alemão”, na Estrada Rio-Petrópolis. Quando saíamos da casa de doces, meu marido não percebeu que vinha um caminhão (com as luzes apagadas) na rodovia, entrou tranquilamente e sofremos uma batida tão feia que o nosso jipe “Candango” ficou sem a capota. O Schultze dirigiu 4 quilômetros tranquilamente, sem dizer uma palavra, e somente quando chegamos à nossa garagem ele desceu do carro e indagou com a maior calma: “Alguém se feriu?” No dia seguinte, na hora da festa, ele estava tão chateado com o preço do conserto do carro, que tomou um porre e caiu no colo da esposa do gerente da Bayer, que estava sentada ao seu lado. Havia mais de 20 alemães ali na sala e eu quase morri de vergonha!
3. - Quando completei 40 anos, estava me sentindo tão velha e deprimida, que na hora dos discursos, fiz estas trovinhas, que estão guardadas na página 97 do meu livro “Cubos de Gelo”:
Mulher de gênio danado,
que o marido mal agüenta,
chego de corpo cansado
nesta esquina dos 40.
Quando eu fizer 50,
ai, meus amigos diletos,
Serei avó “corujenta”
de um casalzinho de netos.
Todo mundo convidado,
quando eu fizer 60,
e o bolo vai ser dobrado
na festa dos meus 80.
E quando em meu centenário
vierem me visitar,
terei em meu relicário
mil coisas pra recordar!
08/12/1969.
4. - Quando completei 50 anos, meu marido fez uma grande festa e nesse dia tivemos a inauguração do galpão onde iria funcionar o almoxarifado da nossa firma. Convertida há dois anos, convidei todos os irmãos da Igreja Presbiteriana de Jardim Primavera. Vieram também o Prefeito de Caxias (um coronel do exército) e sua esposa (que mais tarde seria minha primeira filha na fé) e a festa ia correndo sem grandes incidentes. Foi então que o Schultze tomou duas taças de champanhe (fora as que já havia tomado às escondidas) e tombou na frente dos convidados. Fiquei tão infeliz que jurei que jamais iria festejar meu aniversário.
Fiz estas trovas na mesma hora:
Um minuto de silêncio
eu peço aos meus comensais,
Por dentro deste túmulo [e apontei meu coração],
mortas em doridos ais,
enterrei as alegrias
e as ilusões conjugais.
Hoje em meu cinqüentenário,
só rugas e nada mais?
Mas eu tenho a Rosemary,
que muito feliz me faz!
Também ganhei uma neta
e isso foi bom demais!
Vou chegar ao centenário.
Quem comigo aposta faz?
Porque na Cruz do Calvário
Encontrei a doce paz!
08/12/1979.
Hoje completo 77 anos e como gostaria que este fosse o meu último aniversário, convidei alguns amigos especiais. Se a torta de chocolate e morango for insuficiente (como o Milberto sugeriu), vocês me perdoem. É que eu fiquei tão traumatizada com essas trágicas festas de aniversário, que não festejei os 70 e apenas me senti obrigada a festejar os 77, porque amo o número SETE.
Mary Schultze, 08/12/2006 (7 h.)