Nunca fui Apofática, Oxente!

Minha filha alemã, que é uma lady de 1,82 m de altura, loura e linda como a avó paterna e perfeita mãe e dona de casa, como a avó cearense, sempre tem lamentado o fato de não ter uma mãe “apofática”, pois sempre fui uma tremenda tagarela.

         Ela tem três filhos - Luciana, Marion e Gustavo, de 27, 13 e 24 anos, respectivamente. Todos moram na Alemanha - por opção - desde 1998, e creio que não voltarão ao Brasil tão cedo. Luciana é casada com um peruano e estuda Química Industrial na Universidade de Leipzig enquanto Gustavo dá aulas de dança numa academia alemã.

         Quando nasceu a neta Marion, a enfermeira da maternidade foi logo dizendo: “É a cara da avó!”. Só que essa enfermeira jamais imaginou que Marion seria também uma garota tremendamente tagarela e irrequieta, que fica amiga de todo mundo, no primeiro instante. Certa noite, quando a mãe estava celebrando um aniversário em certo restaurante de luxo, na Alemanha, a menina sumiu... Depois de muita procura, foi encontrada na cozinha do restaurante, lavando louça (eu adoro lavar louça), no maior papo com os funcionários da casa.

         Quando estava na faixa dos seis anos, escutei-a falando em voz alta (em Alemão), lá não quarto da irmã. E quando perguntei o que estava fazendo com o Novo Testamento que eu havia levado na viagem, ela explicou: “Oma, estou pregando o Evangelho para esses alemães incrédulos!”

         Aos sete anos, quando a professora quis impor o estudo do Catecismo Católico, ela protestou, dizendo: “Sou protestante como a minha Oma Mary Schultze e quero estudar a Bíblia”! Ganhou a parada!

         Ela já está fazendo um curso técnico... Imaginem de que? Erraram! Não é de Cosmetologia, nem de Teologia, como eu fiz... é de bombeira! Ela tem um jeito de quem gostaria de botar fogo no mundo, mas, em vez disso, parece que vai se especializar em apagar incêndios! Imagino-a, dentro de uns cinco anos,  casada com um bombeiro alto, louro, de olhos azuis, lindo de morrer, o qual virá ao Brasil (detesto viajar), quando me abraçará carinhosamente, dizendo: “Oma, Ich liebe Dich!”. Nesse momento eu serei capaz de me tornar “apofática”... de tanta emoção! Meus olhos, já tão cansados do computador, vão se encher de lágrimas de alegria porque minha neta “clone” estará casada e feliz!

         Marion não tem nada de “apofática”... tem sangue cearense, é despachada e não me admiraria se ela começasse a responder qualquer pergunta da mãe com um sonoro “Oxente, Mutti!”.

        

Mary Schultze, agosto 2006

ary Schultze, agosto 2006