O dia em que tentei ser exorcista

 

Isso aconteceu em 1990. Estava assistindo um culto vespertino na IPB de J. Primavera, RJ, em companhia de minha filha Rose, nessa época com 14 anos. Ali eu residia e trabalhava em minha micro-empresa de cosméticos. Havia convidado uma vizinha macumbeira para assistir o culto na Igreja, esperando que ela trocasse o terreiro de Umbanda pelos bancos da Igreja Presbiteriana.  Lá pelas tantas, a mulher começou a estrebuchar, falar grosso e perturbar o culto. Eu era diretora da Escola Dominical e depressa levei-a  para os fundos da Igreja, onde havia uma pequena sala para aconselhamento. Tentaria livrá-la do capeta.

         Alguns minutos de fracasso e logo vi que não tinha muita vocação para aquele ofício, voltei ao salão de cultos e pedi a um pastor pentecostal, que ali se encontrava ao lado da esposa, que viesse comigo para dar uma “mãozinha” no exorcismo. Ele veio depressa e daí a alguns minutos, a esposa dele, que era muito ciumenta, falou para minha filha: “Sua mãe levou meu marido lá para os fundos da igreja e na certa não devem estar fazendo boa coisa. Vou lá e quebro essa mulher de pau!” Minha filha, que conhecia muito bem a mãe que tem, a qual jamais teve qualquer vocação para fisgar marido alheio, saiu correndo e chegou toda esbaforida; “Mãe, a mulher do Pr. Lima vem aí lhe bater porque diz que você chamou o marido dela aqui para os fundos da igreja...”

Daí a pouco a mulher entrou na sala, acompanhada de dois presbíteros, e quando a endemoninhada a viu, começou a berrar horrendos palavrões, que não havia tido coragem de berrar para mim. Confesso que jamais tinha ouvido coisas daquele naipe e fiquei muito nervosa. Era a primeira vez que eu enfrentava um demônio e já estava exausta de tanto mandar que ele saísse daquela mulher “em o Nome de Jesus”. Acho que ele era realmente ateu! Mais ateu do que o Eduardo Konstanty, um Químico alemão, amigo do meu marido, com quem deixei de me casar, três anos após ter enviuvado, quando ele se abalou de Frankfurt e veio me pedir em casamento, simplesmente porque ele disse que iria me proibir de ler a Bíblia, quando estivéssemos casados. Preferi ficar com a minha Bíblia! Mas voltemos ao exorcismo.

         Depois de muita luta, quando eu já me considerava completamente vencida pela teimosia do tal demônio,  a mulher voltou ao normal e, a partir daquele dia, parece que nunca mais recebeu demônio algum. Muitos meses depois, tendo se mudado para Niterói, veio procurar-me para agradecer o exorcismo e dizer que havia se convertido a Cristo numa igreja pentecostal e nunca mais havia tido problema algum com os demônios que antes a atormentavam.

     Parece que todo endemoninhado, depois que se liberta,  prefere se tornar membro de igrejas pentecostais, principalmente essas barulhentas, cheias de sinais e maravilhas... Bem, acho que é porque muitos pastores das igrejas tradicionais já não crêem literalmente em Satanás, demônios, inferno, céu, e tudo o que a Bíblia nos ensina. Eles preferem espiritualizar a Palavra de Deus, segundo os ensinos dos pais platônicos de Alexandria, e vão perdendo a fé, passando a anunciar as verdades bíblicas apenas com o fito de garantir os  seus empregos... Como o fazem os padres romanistas, visto como são pássaros da mesma plumagem, voando juntos na base do Ecumenismo  “cristão”.     

Uma coisa ficou bem nítida em minha mente. Nunca mais iria pedir ajuda a pastor algum para exorcizar demônios porque a mulher daquele ficou mais brava comigo do que o próprio capeta. E muito menos iria me aventurar a “dialogar” com qualquer chifrudo, por mais fraco que se mostrasse, porque realmente não nasci para ser colega do Padre Quevedo, nem dos pastores que faturam uma grana violenta à custa dos crédulos ex-macumbeiros... Vou ficar somente com as minhas traduções semanais de bons autores fundamentalistas bíblicos, em minha luta contra a hierarquia romana e as bíblias falsificadas, que já me dão um trabalho tremendo!

 

Mary Schultze

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