O Cortador de Grama

 

        De um dos meus filhos virtuais recebi o e-mail abaixo, que me fez dar boas risadas. É que me lembrei da diferença de temperamentos que existia entre meu marido alemão e eu. Quando eu explodia por causa de sua eterna calma (ele sempre tratava qualquer problema com a frase: ‘vou estudar o assunto’), o Schultze sempre me olhava com aquele rosto bondoso e falava: “Mamãe, fica calma, eu te amo muito!” Era assim que o berlinense me desarmava. Acho que se ele fosse violento eu estaria hoje numa cadeira feminina!

         Pouco antes de escrever esta crônica o telefone tocou. Era minha querida amiga e irmã em Cristo, Mazé. Há muitos anos seu marido era corretor da Bolsa de valores e o casal vivia nadando em dinheiro... Viajaram o mundo inteiro (Oriente e Ocidente), moravam numa cobertura na Avenida Atlântica e possuíam muitos imóveis na Zona Sul do RJ. Até que ele convenceu-a a assinar escrituras de venda dos imóveis, para arriscar tudo na bolsa. Resultado: Foram perdendo tudo, pois jogar na Bolsa é pior do que jogar em cassinos. Hoje moram num apê de quarto e sala em Teresópolis. Transformou-se num marido idoso e inválido, por causa de um AVC, e ela o trata com o maior carinho. O orçamento é apertadíssimo. Não sei  se eu iria suportar tanto aperto... Com um marido inválido, que na mocidade vivia me traindo!

O que mais me encanta nessa amiga é que ela vive sorrindo, cheia de amor e otimismo no coração. Tem mais e 80 anos, mas parece mais jovem do que eu... É uma mulher ainda muito bonita e elegante! Ela é encantadora!

         A essa mulher maravilhosa dedico estas “mal digitadas linhas”, a fim de que ela possa ver o que aconteceria comigo, se meu marido tivesse jogado fora uma fortuna enorme e tivesse me deixado nesse estado de pobreza. Ele faleceu de um enfarte fulminante, na véspera de completar 60 anos. No dia seguinte, após o funeral, fui procurar uma duplicata que estava vencendo naquele dia. Havia sido paga, três dias antes do vencimento. Ele não me deixou uma dívida sequer e tudo que conseguimos trabalhando juntos, durante 26 de casamento, ficou à minha disposição e de nossas duas filhas. Reparti tudo com elas e hoje gozo uma velhice tranqüila e feliz, vivendo exatamente como gostaria, ou seja, com simplicidade e elegância.

         Vamos ver agora como eu teria agido, se ele fosse perdulário - como o marido de minha amiga - ou  sarcástico, conforme o marido da história abaixo:


“Quando o nosso cortador de grama quebrou, minha mulher ficava sempre me dando a entender que eu devia consertá-lo.

Mas eu sempre acabava tendo outra coisa para cuidar antes, o caminhão, o carro, a pesca, sempre alguma coisa mais importante para mim.
Finalmente ela pensou num jeito esperto de me convencer.

Certo dia, ao chegar em casa, encontrei-a sentada na grama alta, ocupada em podá-la com uma tesourinha de costura.

Eu olhei em silêncio por um tempo e depois entrei em casa.
Em alguns minutos, voltei com uma escova de dentes e lhe entreguei.
‘Quando você terminar de cortar a grama,’ eu disse,’você pode também varrera calçada... Os médicos dizem que eu voltarei a andar, mas mancarei pelo resto da vida”...

 

É isso aí, amigos! Meu marido alemão era um sábio! Estudou na mesma universidade (Tübingen) em que o Ratzinger lecionou Teologia Católica! Ele estudou Química e embora não tenha estudado Psicologia, nem fosse um crente fundamentalista bíblico, soube levar direitinho esta cearense, a qual não usa tesourinha para cortar grama, porém sempre soube manejar com maestria uma peixeira, do tipo que se usa na cozinha, para limpar peixes e atacar... Maridos infiéis e/ou sarcásticos!

 

Mary Schultze, setembro 2006