Onde está o Guilhermino?

 

        Existem pessoas que nos marcam a vida, muitas vezes simplesmente por alguma coisa boa que nos concederam em um momento de tristeza e desamparo.

        Em 1986, após ter deixado o Seminário Teológico Betel, entrei em profundo estado de depressão e anorexia, tendo sido internada por algum tempo e, em seguida, enviada para casa, onde, segundo uma junta médica do Hospital  Silvestre (RJ), iria morrer, pois meu caso era perdido. Havia emagrecido mais de 10 quilos dos 52 que pesava antes, estava com o rosto coberto de acne, os cabelos caindo e os ossos quase perfurando a pele. Com 56 anos de idade comecei a me preparar para morrer.

        Durante o tempo em que fiquei aguardando a morte, sem conseguir engolir alimento sólido e sentindo dores terríveis me queimando o estômago, dediquei-me, mais do que sempre,  à leitura da Bíblia. Queria chegar lá em cima com uma certa bagagem bíblica, a fim de me apresentar diante do Juiz Supremo, o Senhor Jesus Cristo, pois Ele disse em João 12:48: “Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia”.

            Quando na chamada Semana Santa (1986) o Pr. Guilhermino Cunha foi pregar (como era costume, todos os anos, na sexta feira) na Igreja Presbiteriana de Jardim Primavera, não tendo me visto, perguntou por mim. Contaram-lhe que eu estava muito doente e ele fez questão de ir me visitar, acompanhado de alguns oficiais da igreja.

        Quando ele chegou, eu estava tão debilitada que mal podia falar. Perguntou se podia ler uma passagem bíblica e escolhi o Salmo 40. Lembro-me perfeitamente quando ele leu na versão ARA os 3 primeiros versos: “Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se inclinou para mim e me ouvi quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos. E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus...”  Depois cantaram o hino “Rude Cruz” (meu favorito naquele tempo) e se foram, deixando-me com uma tremenda sensação de perda.

         Comecei a chorar de tristeza, porém naquele exato momento senti que Deus ia me curar porque eu confiava nEle. Pouco tempo depois, consegui comer o primeiro bife e em menos de quatro meses estava recebendo de volta os quilos perdidos (Outro que me ajudou muito nessa época de crise foi o Pr. Nélio Quaresma, o qual sempre me telefona no dia 08 de dezembro...)

        Guilhermino subiu muito na hierarquia da IPB. Um dia chegou a ocupar a cadeira de Presidente do Supremo Concílio,  a qual, anos antes, havia sido ocupada pelo  meu amigo Dr. Paulo Breda,  que já está na glória. Perdemos o contato, pois ele ficou importante demais e depois disso eu o ouvi pregando apenas uma vez, na Catedral Presbiteriana do Rio, numa noite primaveril de domingo.

         Aquele ovelha magra, enferma e desenganada que o Pr. Guilhermino deixou lá em casa, depois de ter-lhe dado conforto espiritual e provado o seu amor cristão, foi se recuperando e hoje, depois de vinte anos, tem algo para contar ao pastor presbiteriano que tanto a confortou naquela sexta feira – realmente santa!

         Vendi a micro-empresa H. Schultze Ltda. e em 1995 vim morar em Teresópolis, a fim de me dedicar à obra do Senhor. Aqui traduzi mais de vinte livros de autores evangélicos  importantes, escrevi mais de vinte e quase 1.500 artigos, a maior parte destes já publicada.

         Trabalho há 11 anos como secretária voluntária do Pr. Paulo Pimentel, fundador e diretor do Centro de Pesquisas Religiosas de Teresópolis (CPR) e tendo completado, no dia 08 deste, nada menos de 77 anos de idade, continuo com o mesmo peso dos vinte anos, a mesma saúde dos trinta e a mente dos 50, quando já estava engajada na obra do Senhor, mesmo lidando com os produtos de beleza que levavam o meu nome.

         Hoje acordei na fria madrugada teresopolitana, puxei os cobertores até o pescoço e fiquei escutando os livros de Gálatas e Efésios na voz de Cid Moreira. De repente, me lembrei de como Deus tem sido maravilhoso demais para mim e como tem colocado ANJOS em minha vida. E um dos anjos que sobrevoaram docemente minhas lembranças foi Guilhermino Cunha, que um dia me deu carinho e consolo, quando eu estava quase deixando este mundo material, para entrar na mansão celestial que o Senhor Jesus me preparou, após Sua Ascensão ao Pai Celestial.

        Obrigada, Guilhermino, por aquele dia de provação, quando você me deu alento, e que Você continue muito fiel à Palavra Santa, a  fim de não apostatar da fé, como tantos líderes considerados grandes têm feito. Que Ele o conserva no caminho reto, sem se desviar para a direita nem para a esquerda. Assim, você continuará sendo aquele ANJO que um dia Deus colocou em meu caminho, quando nos encontramos pela primeira vez na Igreja Presbiteriana de Copacabana.

 

Mary Schultze, 12/12/2006

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