Dois Pastores e uma “Teóloga”

 

O homem é um ser corrupto e mentiroso, segundo a Palavra de Deus, e nem mesmo sendo convertido ao legítimo Evangelho de Cristo, quando “as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”, ele consegue ficar realmente bom e altruísta, pois o “velho Adão” continua existindo e Satanás se diverte, usando de artimanhas para seduzir o “novo homem”.

Em meu tempo de adolescente, quando cursava o Ginásio, em Crato, Ceará, lembro-me perfeitamente dos padres católicos, gordos e suados,  usando aquelas negras batinas, que muitas vezes cheiravam a ácido butírico, pois não eram trocadas diariamente. Esses padres viviam em constante guerra fria, para ver quem conseguia os melhores cargos na paróquia e, principalmente, o amor das “beatas filhas de Maria” mais enxutas e ricas da cidade. Uma de minhas professoras namorava abertamente um deles e muitas vezes, quando eu ia à sua casa tirar dúvidas da matéria por ela ensinada, o padre lá estava, todo refestelado numa enorme cadeira de balanço, ou então trancado no quarto com ela, que, segundo a empregada, “estava se confessando”.  Nesse tempo eu ainda acreditava na piedade e celibato dos padres, pois estava cega pelos sofismas de Roma, como ainda hoje acontece a mais de um bilhão de tolos que estão presos aos sofismas e engodos da “Santa Madre”.

Hoje a rivalidade continua e até mesmo os pastores evangélicos herdaram esse pecado dos padres, pois entre eles também existe rivalidade e egoísmo. Conheci o caso típico dessa rivalidade e preciso alertar os pastores, a fim de não caírem no mesmo pecado. A síndrome é bem antiga... Lutero, o grande Reformador, já costumava dizer: “Não suporto a maneira como Zwinglio se comporta no púlpito, falando em Grego, Hebraico e Latim ”. O homem bom nasceu morto...

  Numa certa Igreja Evangélica tradicional, havia dois pastores - o titular e o co-pastor. O titular era um nordestino culto, inteligente e, honesto, cujo grande defeito é ser muito vaidoso, talvez por ser formado em Filosofia e se achar um “poço de cultura”. O co-pastor estudou num seminário, com o fito de conseguir o grau de teologia necessário para receber a consagração. Tendo sido gerente de uma empresa, onde ganhava um salário enorme, e tendo sido demitido e recebido muitos milhares de Reais, comprou alguns imóveis e em seguida se candidatou a um cargo de co-pastor na igreja do nordestino, onde já havia feito alguns favores a certos membros, no sentido de conseguir aliados dentro da mesma. Usou aquele papo furado de que “sendo um amigo de missões e do Evangelho não precisava ganhar salário algum, o qual ficaria somente para o pastor titular”, etc. Entrou na congregação e tempos depois, quando já conhecia bem todos os membros, começou a agir de maneira sub-reptícia  (do tipo jesuíta), a fim de minar o ofício do colega.

O nordestino, no princípio, não percebeu a manobra do “Acabe” moderno, querendo tomar-lhe a vinha à força, e foi aceitando alguns favores do mesmo, sempre elogiando a sua magnanimidade e bom caráter. Contudo, os meses passaram e somente mais tarde o nordestino finalmente despertou do sonho rosado de ter um amigo tão próximo, ali mesmo no pastorado, e entrou numa depressão tremenda, desiludido com a seu auxiliar, que se transformara num rival perigoso.

Se o pastor nordestino não tivesse mulher e filhos para manter, teria pedido demissão do cargo e procurado - lá em sua terra - uma colocação pastoral, numa igreja qualquer. Mas os filhos estavam na escola, sua vida estava bem programada e ele ficou num beco sem saída, não sabendo se devia fechar os olhos às manobras do tal colega (por amor à família e à congregação), ou se colocava as cartas na mesa e denunciava as investidas do “vilão”, que vivia fazendo uma cara de santo, enquanto falava para a congregação: “meus irmãos, vejam que eu não recebo salário aqui, enquanto esse aí recebe uma excelente mensalidade. Não seria o caso de substituí-lo por mim?”

Quem me contou esta história foi uma amiga minha e do pastor nordestino. Acreditei piamente na mesma. E como não sou de ficar calada (Eva desgraçou a humanidade por ter duvidado da palavra de Deus, enquanto eu sempre me complico porque falo demais). Escrevi um artigo denunciando a falcatrua do “vilão” (sem citar nomes) e mandei para o jornal onde escrevi durante quase 10 anos. O resultado foi trágico. O pastor “vilão” veio até o meu apê, acompanhado do pastor nordestino e de dois membros de sua igreja. Queria que o nordestino confirmasse a história, diante de todos, o que ele não fez, acovardando-se vergonhosamente.

Assumi toda a culpa, pois a pessoa que havia me contado a história  pediu que eu não revelasse o seu nome. E eu sabia que era verdade. No final da entrevista (todos bem educados), o pastor “vilão” disse que iria mover uma ação contra mim. Eu disse que tudo bem, mas antes queria lhe fazer uma pergunta... “O senhor conhece bem a Bíblia?”  Resposta: “Claro, eu sou um pastor”. Eu disse: “Então, diga o que está escrito na 1 Coríntios 6:1-8”. Ele titubeou e disse que não sabia. Então eu falei: “Ótimo, vamos ler essas passagens, agora mesmo” . Li em voz alta para os 4 visitantes. “OUSA algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida? Então, se tiverdes negócios em juízo, pertencentes a esta vida, pondes para julgá-los os que são de menos estima na igreja? Para vos envergonhar o digo. Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos? Mas o irmão vai a juízo com o irmão, e isto perante infiéis. Na verdade é já realmente uma falta entre vós, terdes demandas uns contra os outros. Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sofreis antes o dano? Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos”.

Após a leitura, o pastor “vilão” baixou a cabeça e rendeu-se à Palavra de Deus. Pediu desculpas e falou para os irmãos e o colega que o acompanhavam: “Meus irmãos, esta irmã é uma verdadeira teóloga! Vamos orar para que Deus continue abençoando a sua vida!” Fez uma bela oração e, anrtes de sair, me abraçou cordialmente. O pastor nordestino não abriu a boca durante toda a visita. O “vilão” deixou aquela pequena igreja e foi ser co-pastor em outra grande igreja. A partir desse dia, ficamos cordialmente amigos. Já o nordestino não me cumprimenta, quando vai à nossa igreja, nem me conhece na rua... Não sei se porque ficou envergonhado de sua covardia ou porque, no final das contas, não era tão inocente assim! Talvez ele nem fosse o “chapeuzinho” e  o outro não fosse o “lobo mau”, pois quem está com a razão sempre tem uma palavra para se defender. Eu é que fui a legítima “vovozinha” da história e poderia ter-me ferrado por querer fazer justiça entre quem deveria me ensinar a ser justa.

Leiamos Jeremias 17:5,9...

 

Mary Schultze, novembro 2006

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