O “Cara Azeda” e o “Lusitano”
Ontem fui assistir ao culto matutino em nossa PIBT. O início do mesmo foi muito edificante, com toda a igreja de pé cantando o Hino Nacional e fiquei me perguntando por que os cultos evangélicos não começam sempre assim em todas as igrejas, pois amar a pátria já é um ponto de partida para se amar a Deus e ao próximo.
Catamos alguns hinos do “Cantor Cristão” e continuo encantada com o coral afinado que temos na PIBT, não me referindo aos vários corais organizados, mas à própria igreja louvando ao Senhor, com alegria e sinceridade de coração. Tivemos ontem o encerramento da campanha de missões nacionais. Muitas pessoas encarregadas de coletar fundos para os missionários nacionais receberam medalhas de ouro, prata e bronze. Como eu não pertenço a organização alguma da PIBT, se me dessem uma medalha esta deveria ser de chumbo! Louvado seja Deus que o meu ministério de pregação e edificação dos crentes seja no teclado do computador, usando meu cérebro ainda fluorescente, sem precisar me cansar fisicamente, nesta provecta idade.
A mensagem foi excelente. O pregador usou Mateus 28:19-20 como base, mostrando como é importante transformar a comunidade familiar, municipal e nacional através da pregação do evangelho de Cristo. Lamentou que havendo centenas de igrejas “evangélicas” nesta cidade e na capital do estado, essas comunidades urbanas continuem cheias de problemas sociais e morais, com a violência imperando através de muitas pessoas engajadas no crime, colocando em perigo os cidadãos de bem, etc. Ele se deteve exclusivamente no Novo Testamento, ao contrário da maioria dos maus pregadores, que usam e abusam do Velho Testamento para florear e espiritualizar suas mensagens, demonstrando falta de discernimento sobre o contexto bíblico em que vivemos, como se estivessem pregando para os judeus e a Igreja fosse realmente o substituto de Israel na economia divina.
Ele apresentou três ilustrações interessantes sobre como o homem “nascido de novo” faz diferença na comunidade. Uma delas mencionava um personagem alcunhado “Cara Azeda”, que era o terror da garotada do seu bairro. Depois que se converteu a Cristo, ele tornou-se um cidadão pacato, deixando de ser o “Cara Azeda” para se tornar o Sr. Manoel, um cidadão amado e respeitado por todos.
No final do culto, ouvimos uma oração feita pelo diretor do programa missionário. Esse irmão tem o mau hábito de orar em voz altissonante, chamando o Senhor Jesus Cristo de “PAI”, o tempo inteiro. Já lhe chamei uma vez a atenção, mas ele prossegue nesse erro. Ontem, após o culto, fui procurá-lo novamente e lhe disse: “Irmão, hoje você falou nada menos de dez heresias, chamando o Senhor Jesus de Pai, negando, assim, a Trindade”. Ele se desculpou do erro, pedindo que eu orasse em seu favor, e por isso mereceu um caloroso abraço e um beijo. Vamos esperar que ele aprenda a lição...
Mais tarde, fui assistir ao culto vespertino na IBC. Cheguei cedo e pude assistir ao final da reunião das senhoras na “MCA” (Mulher Cristã em Ação), a qual achei muito fraca em conteúdo espiritual e cultural. Uma jovem senhora de cor falou durante alguns minutos, “estropiando” o vernáculo, porém em seguida cantou uma linda canção evangélica. O que me agradou nela foi o vestido de seda sintética, estampada em branco, cinza e duas tonalidades e azul, uma peça que despertou logo a “Mary Fútil” que existe em mim. Após a reunião, fui procurá-la para saber o endereço da loja onde ela havia adquirido aquele vestido e fiquei sabendo que ela é vendedora de roupas. Dei-lhe o meu cartão e vou aguardar sua visita, para gastar alguns trocados e deixá-la feliz, pois ela me disse que ganha uma comissão com essas vendas por encomenda, etc.
O culto das 19,30 h começou, mas antes disso, quando eu estava lendo a programação, senti um apertado abraço me envolvendo. Era o pastor da IBC, um gigante de quase dois metros de altura, muito carismático e bem firmado na auto-estima, por ser um psicólogo cristão.
Cantaram-se três hinos do “Cantor Cristão”, e mais de sete corinhos medíocres, quase todos embasados no Velho Testamento. Em um deles os cantores clamavam estrondosamente para que o Senhor viesse “libertá-los das cadeias, amarras, correntes, escravidão”, etc., como se Ele já não o tivesse feito (Gálatas 3:13). No corinho seguinte, os cantores gritavam que “Queriam mais de Jesus” para se livrarem do pecado e da morte, desconsiderando Romanos 8:1, naturalmente. Impossível “sofrer” sete corinhos desse gênero, de pé, em completa mudez, o que me fez sentar, no início do terceiro, pois não sou de ferro!
O que me irrita nesses corinhos repletos de heresias bíblicas e culturais é que os seus autores são incompetentes na Bíblia e no vernáculo, enquanto os “cantadores” são iguais aos “compositores”, cantando apenas para se mostrar, achando que estão realmente louvando ao Senhor. Quando será que os pastores vão despertar para a inutilidade de tentar agradar os jovens, temendo que eles desapareçam da igreja organizada, ou melhor, que a freqüência diminua e esses pastores percam os seus empregos? Por que não lhes ensinam a ser realmente cristãos, em vez de apenas cristãos de fachada, falando insulsos jargões - o tempo inteiro - e cantando canções sem o menor embasamento na legitima doutrina de Paulo, como se ainda estivéssemos presos ao contexto do Velho Testamento? E o nosso conhecimento de línguas e ciências exatas? A educação neste país é tão pobre nesse aspecto que, quando um brasileiro vai morar no Velho Mundo, sofre bastante para acompanhar os programas educacionais da União Européia.
Após a circulação de quatro sacolas azul marinho (antes não eram vermelhas?), coletando dízimos e ofertas (nunca levo um Real sequer para igreja alguma, pois em nossa PIBT é quase proibido falar em dinheiro), o pastor psicólogo anunciou o pregador, um seminarista do quarto ano. O dito era afro de aparência e quando começou a falar cometi dois equívocos mentais: o primeiro foi pensar que ele iria cometer alguns erros de Português (como 9 entre dez seminaristas de hoje em dia) e o segundo foi pensar que ele era angolano, ou coisa parecida, por causa do sotaque lusitano.
Ele foi brilhante! Entregou uma mensagem totalmente embasada na Bíblia, com clareza de redação, pregando sobre a oração bem ou mal feita pelo crente, conforme Tiago 4:3, 10 e 5:15: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites. ... Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará. ... E a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”.
O único defeito na pregação do seminarista (Josias Freitas) foi que ele leu a mensagem, o que, aliás, é comum quando um seminarista vai pregar, pois ainda não está seguro do que vai dizer, temendo cometer algum deslize que possa escandalizar os ouvintes.
Após o culto, fui cumprimentá-lo pela bela mensagem, obedecendo ao mandamento de Romanos 13:7-8: “Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra. A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei” (Grifo meu).
Ao contrário do domingo passado, quando tive os ouvidos massacrados com a pregação daquele pastor “grávido de heresias” (numa igreja batista “avivada”,) ensinando engodos “prósperos”, “celulares” e “propositados”, a noite de ontem foi proveitosa, apesar dos corinhos...
Mary Schultze, 27/11/2006