Autoridade e Submissão
(Dave Hunt)
Existem três declarações de Cristo estreitamente relacionadas aos Seus discípulos, as quais têm gerado muita controvérsia sobre a sua interpretação.
1) - Mateus 16:19 e 18:18: “E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.
“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.
2) – Mateus 18:19: “Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.”
3) - João 20:23: “Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos”.
Quando procuramos entender qualquer passagem da Escritura, uma regra deve ser seguida. Qualquer coisa declarada na Bíblia deve ser interpretada pela própria Bíblia [Não algo fora da autoridade, pois a Bíblia por si mesma se explica]. É na Bíblia que aprendemos sobre o evangelho, sobre a igreja que Cristo estabeleceu, sobre o discipulado e as responsabilidades, a autoridade e o poder que Ele deu aos que são Seus. Portanto, devemos olhar somente para a Bíblia, a fim de entender tudo, pois ela é compreensível.
A Palavra de Deus é apresentada a toda a humanidade. Ela jamais sugere uma linha especial de líderes que devam explicá-la ao restante da humanidade; e que sem o auxílio, a pessoa comum não consiga entendê-la. De fato, o oposto é ensinado na Escritura. Consideremos um exemplo citado por Jesus em Mateus 4:4 e Lucas 4:4:
“Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”... “Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus”.
O Salmos 1:1-2 diz: “BEM-AVENTURADO o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite”.
O Salmos 119:9 diz: “Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra”.
Observem que em cada caso, o homem (ou mulher) comum, e até mesmo o jovem ou a jovem, lêem e obedecem a Palavra de Deus. Não existe um lampejo de que as pessoas aqui mencionadas precisassem consultar um mestre especial para entender as Escrituras. Portanto, devemos concluir ser esse o caso aplicável a qualquer pessoa.
O Novo Testamento também apóia essa conclusão. Considerem a censura de Cristo feita aos dois discípulos, no caminho de Emaús, por não conhecerem nem compreenderem as Escrituras. Que nenhum deles fazia parte do círculo dos apóstolos está claro, porque eles se apressaram a voltar a Jerusalém, a fim de contar aos onze (Judas estava morto) sobre o aparecimento de Cristo. (Lucas 24:33-34). Mesmo assim, Jesus censurou essas pessoas comuns [pela falta de conhecimento da Palavra de Deus]. Ele não teria usado essa linguagem, tornando-os pessoalmente responsáveis por não saberem tudo que os profetas haviam dito, a não ser que as Escrituras fossem compreensíveis ao povo comum.
Os da cidade de Beréia (judeus e gentios), “...foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos 17:11), conferindo o que Paulo pregava. Essas pessoas comuns foram elogiadas por não aceitarem automaticamente a interpretação bíblica do Apóstolo Paulo, preferindo conferi-la eles mesmos pelas Escrituras. [O grande mal dos crentes modernos é a preguiça de ler a Bíblia, confiando cegamente em seus pastores]. A partir deste e de outros exemplos, concluímos ser responsabilidade de cada indivíduo conhecer e entender a Palavra de Deus, ficando embasado no que ela diz e não em qualquer autoridade religiosa que lhe diga o significado da mesma.
Este fato expõe como totalmente espúria a afirmação da Igreja Católica Romana de que somente o seu Magistério (a hierarquia dos bispos, padres e papa) pode interpretar corretamente a Bíblia. Essa igreja nem sequer existia na época dos bereanos, para que estes pudessem consultá-la, e muito menos no tempo dos discípulos de Emaús, ou qualquer outra pessoa da antiguidade. Do mesmo modo, a afirmação de qualquer outra igreja ou seita de que somente os seus líderes podem interpretar a Bíblia é também contraditória às Escrituras.
Três coisas devem ficar absolutamente claras:
1. - A Bíblia foi entregue por Deus como Sua Palavra a todos os que a receberem.
2. - Ela é entendida pelo povo comum, até mesmo pelos jovens, sem qualquer treinamento especial ou necessidade de líderes religiosos para interpretá-la.
3. - Cada pessoa é responsável pelo conhecimento pessoal da Palavra de Deus e essa responsabilidade é intransferível ao pastor, padre, papa ou a qualquer outra pessoa.
Com esta compreensão, devemos considerar agora as passagens supra citadas. Para apoiar o conceito católico de um papa como sucessor do Apóstolo Pedro, é dito que a promessa de Mateus 16 das chaves do reino foi entregue exclusivamente a Pedro. Até mesmo se isso fosse verdade, a promessa das chaves está conectada à promessa de ligar e desligar, em Mateus 18:18 e João 20:23. Cristo concede o poder de ligar e desligar, de perdoar ou reter pecados a todos os discípulos do Seu círculo particular. Este fato elimina qualquer prioridade e autoridade especial outorgadas por Cristo aos Seus doze discípulos originais. Elas foram passadas a todo cristão verdadeiro.
Essa conclusão conduz diretamente ao mandamento de Cristo dado aos Seus discípulos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15), “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:20). Nesse caso, todas as promessas de Cristo e tudo que Ele ensinou aos Seus discípulos originais foram transmitidos a todos os cristãos através da história, inclusive a nós, os cristãos de hoje. Obviamente, tudo que os discípulos foram ensinados a observar, inclusive as promessas relativas às chaves do céu, a ligar e desligar, a perdoar ou reter pecados - e autoridade para fazê-lo, também nos foram transmitidos.
Os novos discípulos deveriam fazer discípulos e a estes ensinar todas as coisas que Cristo havia ordenado aos doze discípulos originais. O que incluía fazer novos discípulos. Como resultado, uma inquebrantável cadeia de discipulado tem existido através dos séculos. Cada cristão, sendo discípulo de um discípulo (todos de volta aos primeiros discípulos) é um sucessor dos apóstolos, habitado e habilitado pelo Espírito Santo para agir dessa maneira.
Então, autoridade e o poder que Cristo deu aos Seus discípulos originais para usar as chaves para ligar e desligar, perdoar ou reter pecados, não pertencem a uma classe de líderes especiais, mas a cada cristão nascido de novo pelo Espírito Santo, através da fé em Cristo. Ora, ligar e desligar o que? Cristo disse “TUDO”. Isso é de fato amplo. Estaria Ele, pelo menos em parte, referindo-se aos demônios? Certamente ninguém poderia “desligar” os demônios. Nem é este um exemplo bíblico, até que os milhares de demônios sejam “ligados”. Cristo permitiu que aqueles demônios que estavam no corpo de um homem, quando Ele os expulsou, fossem habitar numa vara de porcos (Marcos 5:-13). Então, qual é o significado disso?
Cristo deu a todos os doze a promessa de poderem ligar e desligar (Mateus 18:18) e depois Ele repetiu essa promessa com palavras diferentes, no verso 19: “Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus”. E no verso 20 Ele diz: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Isso nos faz entender que qualquer coisa a ser ligada ou desligada deve ser feita quando se pede ao Pai Celestial em o Nome de Cristo, quando dois ou mais cristãos concordam na terra, reunidos e com Ele ali presente.
A promessa de obter do Pai, quando dois ou três concordam, confirma as promessas idênticas de Cristo com respeito à oração, tais como: Mateus 7:7: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á”. Todas essas promessas de ligar e desligar, concordando com um pedido, ou simplesmente crendo - parecem muito semelhantes. Mas qual é a sua significação? Cristo certamente não quis dizer que não importa o que liguemos ou desliguemos, concordemos a respeito ou peçamos, Deus vai nos conceder como um vovô muito indulgente. É claro que Deus não criou o universo e a humanidade para deles fazermos o que bem desejássemos. Tiago declara que Deus, ao contrário de nos dar um cheque em branco, jamais concorda com os nossos desejos egoístas.
“Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tiago 4:3). O Apóstolo João escreveu:
“E qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que é agradável à sua vista” (1 João 3:22).
“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe fizemos” (1 João 5:14-15).
Está claro que os pedidos feitos em oração são atendidos em favor daqueles que agradam a Deus e somente conforme a Sua vontade. Quem poderia desejar que isso acontecesse de outro modo? Limitações desse tipo em matéria de oração devem ser aplicadas até mesmo com respeito às amplas promessas feitas, tais como em Mateus 21:22 “E, tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis”. Marcos 11:24 “Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis”. E João 16:23: “E naquele dia nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar”.
Até mesmo estas amplas promessas envolvem duas condições: CRER - (isto é, ter fé em Deus) e PEDIR em o Nome de Cristo. Elas estão limitadas nestes dois pontos [Sendo Cristo o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5), nada chega aos Seus ouvidos senão através dessa mediação]. A fé não é um poder da mente [confissão positiva], nem pelo fato de alguém crer que algo vai acontecer, isso de fato acontecerá [Essa é a espúria teologia de David Yong Cho, a qual tem desviado tantos cristãos do verdadeiro evangelho]. A fé deve ser conforme Cristo, em Deus [Jesus diz em João 15:5: “Sem mim nada podeis fazer”.] Ter fé não é crer que a oração será respondida conforme o nosso desejo, mas crer que Deus vai respondê-la a Seu modo. Além do mais, “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade (Efésios 1:11). A genuína fé que procede de Deus jamais poderá exigir coisa alguma que não seja conforme a Sua vontade. [Orar pela conversão de um pecador, por exemplo, é algo que sempre agrada a Deus, pois Ele deseja que todos os homens sejam salvos].
Quanto a orar em o Nome de Cristo, esta frase tem sido tomada em muitas orações como se fosse uma fórmula miraculosa, tipo “Abre-te Sésamo”! Pelo contrário, pedir em o “Nome de Cristo” é pedir conforme o Seu interesse e para a Sua glória, conforme Ele pediria, pois Sua vontade está sempre de acordo com a vontade do Pai. Portanto, a oração não é um meio de forçar a vontade de alguém sobre Deus. Em vez disso, ela é a graciosa oportunidade que Ele nos dá de tomar parte na realização de Sua vontade. Então, no caso de usar as chaves do céu para ligar e desligar, perdoar ou reter pecados, os seguidores de Cristo devem agir apenas como agentes do Seu poder e conforme a Sua vontade.
Poderíamos ser mais específicos? Cristo disse “Tudo que”, mas mesmo assim, somente conforme a Sua vontade. Ele vai revelar os detalhes, quando chegar a ocasião. O ponto importante é que esse poder e autoridade não foram dados especificamente a Pedro ou somente aos Seus discípulos originais, mas foram transferidos a todos nós, os cristãos bíblicos de hoje, junto com tudo que Ele ensinou e nos mandou fazer [João 15:14]. Quando curou a mulher que tinha um espírito de enfermidade há dezoito anos, Ele lhe disse: “Mulher, estás livre da tua enfermidade” (Lucas 13:11-13). Pelo dom de curar, os discípulos poderiam desligar os enfermos da escravidão às suas enfermidades e por expulsar demônios, eles desligavam suas almas da escravidão aos mesmos. Todo cristão tem hoje esse mesmo poder em o Nome de Jesus (quando Ele quiser e para a Sua glória).
Como libertar e perdoar pecado? A Escritura é clara ao dizer que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23). Esse pecado não foi contra um ser humano, mas um Deus Santíssimo. Então, somente Ele pode perdoar pecados. Os pecados da humanidade e o seu destino eterno incluem não apenas o Amor de Deus, mas também a Sua Justiça. Ele perdoa nossos pecados somente porque Cristo pagou toda a penalidade exigida pela Sua infinita Justiça. Paulo diz em Romanos 3:23-28: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei”. O perdão dos pecados se aplica somente aos que crêem no evangelho. [Hoje é moda os pregadores modernos (desejando ganhar dinheiro com as suas igrejas repletas de dizimistas) pregarem um evangelho adaptado ao gosto dos “aquecedores de bancos da igreja”. Esse tipo de evangelho é condenado, conforme Paulo, em Gálatas 1:8: “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema”.] Contudo, o Senhor deixou bem claro, quando disse a Nicodemos: “... aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
Aquele que aceitou o seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro”. (João 3:3-5 e 33).
A Escritura que Cristo leu na sinagoga de Nazaré, a qual ele declarou estar sendo cumprida em Seu ministério, antecipava a vinda do Messias, dizendo:
“O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” (Isaías 61:1), citada em Lucas 4:16-21). Isaías e Cristo estão afirmando que libertar os cativos do pecado acontece somente pela pregação do evangelho, o qual “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” (Romanos 1:16). Não seriam estas as chaves do reino?
É pura ilusão pensar que Deus colocou nas mãos de alguns homens ou de uma igreja o poder de decidir quem vai para o céu ou quem vai para o inferno. Como poderiam eles fazer isso? Somente na cruz de Cristo “...temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Efésios 1:7). Nem mesmo o próprio Deus pode perdoar pecados noutra base, [pois isso iria de encontro – não ao encontro – de Sua perfeita Justiça]. O evangelho abre a porta ao céu, o exato evangelho que Cristo mandou que os seus discípulos originais fossem pelo mundo pregando e cuja autoridade e responsabilidade foram a nós transmitidas, até o dia de hoje.
É de suma importância lembrar que todo cristão tem o poder de libertar almas da penalidade do pecado, através da proclamação do evangelho verdadeiro àqueles que irão crer. Esta é a boa nova da graça de Deus, a qual liberta as almas da escravidão de Satanás.
As chaves não são mágicas. A fé é exigida. Deus deseja que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2:4) e que nenhum pereça (2 Pedro 3:9). Contudo, muitos vão perecer, na certa, por persistirem em sua rebelião contra Deus e em sua e rejeição ao Seu Filho Jesus Cristo. O próprio Deus não pode forçar pessoa alguma a amá-Lo, porque o poder de escolha (livre arbítrio) que Ele nos deu é essencial ao amor.
Portanto, deveria ser a nossa grande paixão persuadir tantos quantos pudermos a aceitar o amor de Deus, o perdão dos pecados e a vida eterna. Como é trágico ver tantos cristãos que conhecem o evangelho deixar de apresentá-lo aos que lhes estão próximos. Quando o nosso Senhor move os nossos corações com amor e compaixão pelos perdidos, podemos corresponder a esse amor, usando as chaves do reino, sempre mais urgente e efetivamente, para a salvação de muitas almas.
Traduzido por Mary Schultze, novembro 2006